O TEMPO E AS JABUTICABAS

(  071  ) MENSAGEM DO DIA

09 DE JULHO DE 2018  – SEGUNDA-FEIRA

Carmem vivia uma fase de grande ansiedade. Trabalho, estudos, tarefas de casa, cuidar da saúde… parece que a moça não estava conseguindo administrar muito bem todas as tarefas a que tinha se disposto fazer. Não se organizava, não conseguia utilizar o tempo adequadamente, começava tudo e não terminava nada…acumulando tarefas e preocupações. Não conseguia relaxar e tudo isso ia deixando Carmem cada vez mais tensa e irritada, até que encontrou tio Luís na casa da avó.

Percebendo o quanto Carmem estava mal, a convidou para um café na cozinha e disse:

– Estava lendo um texto de Rubem Alves e pensando na minha vida, Carminha. Contei meus bem vividos anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. E me sinto como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas.  As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, roía até o caroço.

É assim que me sinto! Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Não tolero mais gabolices.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.

Não quero mais participar de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.

E nem quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são absolutamente imaturas.

Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de ‘confrontação’, onde ‘tiramos fatos a limpo’.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

O poeta e escritor Mário de Andrade é que dizia: “as pessoas não debatem conteúdos, debatem apenas os rótulos”. E ele tinha razão.

Meu tempo se tornou escasso para debater rótulos, quero a essência, porque minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, que  não se encanta com triunfos, que não se considera eleita antes da hora, que não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial é que faz a vida valer a pena.

Penso que é isso o que está faltando na sua vida. Faltando não. Sobrando. Tem coisa desnecessária demais no seu dia. Experimenta viver só o essencial e já terá feito coisas maravilhosas.

Como queremos mudar o mundo se ainda não conseguimos mudar nem a nós mesmos?

Pra quê preciso saber o livro inteiro se ainda não consegui compreender o primeiro capítulo?

Não preciso acabar com a miséria do planeta, se consigo dar de comer a uma criatura faminta aqui, bem pertinho de mim.

Não é necessário levantar a bandeira contra o preconceito, nem gritar palavras de ordem pela inclusão social. Basta sorrir para o gari na rua, agradecer a gentileza do porteiro, ajudar a senhorinha a subir no ônibus, oferecer uma palavra de carinho a quem está triste…

Um passo de cada vez, prestando atenção à paisagem, às boas companhias, à própria respiração e à lição que aquele passo lhe concedeu… para então passar ao segundo.

Viva o essencial. E chegará à plenitude de todos os seus objetivos reais – os que valem realmente a pena viver.

 

 

MÚSICA – Paulinho Moska e  Zeca Baleiro – O que você faria