O SONHO DOS RATOS  (nova velha fábula)

(  036  ) MENSAGEM DO DIA

21 DE MAIO DE 2018 – SEGUNDA-FEIRA

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma velha casa.
Por lá, ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho deles. Comer o queijo seria a suprema felicidade…

Quer dizer: bem pertinho é modo de falar. Na verdade, o queijo estava imensamente longe, porque entre ele e os ratos estava um gato…
O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco, para que o gato desse um pulo e… era uma vez um ratinho!!

Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam, mais irmãos se sentiam.
O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato
morresse ou sonhavam com um cachorro…

Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar.
Então faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram até mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos.  Diziam que chegaria o dia em que os gatos seriam extintos no planeta e todos seriam iguais.

– Quando se estabelecer a ditadura dos ratos, diziam os camundongos, então todos serão felizes…
– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
– Dividiremos todo o queijo entre nós, dizia outro.
E todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse!
Sonhavam… E nos seus sonhos comiam o queijo. E no sonho, quanto mais o comiam, mais ele crescia. Sim, porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados:  não diminuem; crescem sempre.
E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando:
“Ao queijo, já!”…

Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido.

Já o queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco.

Olharam cuidadosamente ao redor. Afinal, aquilo poderia ser um truque do gato, uma pegadinha.

Mas não era. O gato tinha desaparecido mesmo.

Chegara o dia glorioso! E dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria.

Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum.
E foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira mordida para compreenderem, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescerem, diminuem.
Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o pedaço de cada um.

Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem  inimigos.
Olhavam para a boca do outro, pra conferir quanto do queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram. Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Os ratos eram seus próprios inimigos.

E a briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E em seguida começaram a brigar entre si. Alguns ameaçaram até chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem.

Outros resolveram colocar ordem na bagunça e fizeram uma lei.

A lei de socialização do queijo foi aprovada nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários  para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como, se rato algum jamais abandonaria um queijo? Assim, os ratos magros foram condenados
a ficar esperando eternamente…

E escondidos dentro do buraco escuro, os ratinhos magros não podiam compreender  o que havia acontecido.
Agora: o mais estranho foi a transformação nos focinhos dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato, o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora.

E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é à toa que os nomes são tão parecidos.

 

Texto de Rubem Alves

MÚSICA … NANDO CORDEL – Onde a gente vai parar