VAI SE ACOSTUMAR?

(  058  ) MENSAGEM DO DIA

20 DE JUNHO DE 2018  – QUARTA-FEIRA

Stella não passava por uma fase legal. Todo mundo tem problemas, todo mundo tem desafios e, às vezes, passa por altos e baixos na vida. Mas essa fase estava complicada, parecia que nada dava certo, que tudo estava mais difícil. Tão difícil que Stella pensou em jogar a toalha, como dizem. Desistir. Parar de lutar, deixar de tentar, se acostumar com o seu triste destino.
– Quanto mais eu tento, quanto mais eu mexo, mais difícil fica, desabafava Stella à melhor amiga.
– Mas é vida é assim pra todo mundo, Stella. Uma onda de ciclos, de altos e baixos, respondeu Mariana.
– É que eu estou cansada de dar murro em ponta de faca e acabar sempre ferida. Então resolvi deixar quieto, até respirar com cuidado, pra não fazer vento. Vou me adaptar à realidade. Vou me acostumar com o meu destino.
– Eu sei que a gente se acostuma, retrucou a amiga. Mas não devia…

– Como assim, perguntou Stella.
A gente se acostuma a morar numa casinha de fundos e a não ter outra vista que não seja um monte de janelas ao redor. E, por não ter outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque, à medida em que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo na viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A cair na cama e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra e sobre o escândalo. E aceitando a guerra e o escândalo, aceita os mortos e os presos – e que haja números para os mortos e para os presos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz e na justiça. E não aceitando as negociações de paz e não acreditando na justiça, aceita ler, todo dia, sobre assuntos prejudiciais ao coração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir ao telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto de um olhar, de um abraço, de um carinho.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir revistas e ver anúncios. A ligar a TV e assistir a comerciais. A ir ao cinema e sair antes mesmo que os créditos subam. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata do consumo e da pressa.
É, Stella, a gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e também o que necessita.; e a lutar pra ganhar o dinheiro pra pagar tudo isso; e se acostuma a ganhar menos do que precisa; e a fazer fila pra pagar; e a pagar mais do que as coisas valem; e a saber que cada vez vai pagar mais; e a procurar mais trabalho, pra ganhar mais dinheiro, pra ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição, à luz artificial, ao choque dos olhos com a luz natural, às bactérias da água potável, à contaminação da água dos rios, à lenta morte dos igarapés.
E aí acaba se acostumando, também, a não ouvir mais passarinhos, a não curtir galos na madrugada, a ter medo da raiva dos cães, a não colher fruta no pé e a não ter sequer uma planta em casa.
Na verdade, a gente se acostuma a coisas demais, pra não sofrer. E não percebe que em doses pequenas, tentando não perceber, a gente vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá… Engole uma raiva aqui, deixa engasgada uma frustração ali e sem querer vai seguindo um passo pra frente e dois pra trás. Se o cinema está cheio, senta na primeira fila e torce o pescoço. Se a praia está contaminada, molha só o pé e fica suando no resto do corpo. Se o trabalho é duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E no fim de semana, sem muito o que fazer, vai dormir cedo satisfeito porque tem sempre um soninho atrasado.
E com você, Stella, não vai ser diferente. Você vai se acostumar pra não se ralar na aspereza da vida, pra preservar a pele. Vai se acostumar pra evitar feridas, sangramentos, pra se esquivar da faca e da baioneta, pra poupar o peito. Na verdade, no fundo, no fundo, pra poupar a vida. Vida que, aos poucos, vai se gastar, e de tanto acostumar, vai se perder de si mesma. Eu só tenho uma pergunta pra você, disse Mariana.
– E qual é? perguntou Stella.
– Essa é a melhor saída que você encontrou para os seus problemas?

MÚSICA …. RAUL SEIXAS – Gospel

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